Quinta-feira, 18 Outubro 2018  00:26:40

Sem Petrobras e Embraer Brasil perderá indústrias, afirma Ha-Joon Chang

  • Escrito por  Por Leandro Severo, especial para o Jornal Primeira Página

“A Petrobras e a Embraer são empresas que articulam imensas cadeias produtivas, se elas passarem ao controle de estrangeiros o Brasil perderá muitas indústrias e soberania sobre seu desenvolvimento”, a afirmação é do economista coreano, professor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Ha-Joon Chang, feita no Seminário de Economia Internacional realizado na PUC de São Paulo, que foi acompanhada pelo Jornal Primeira Página.

Chang se tornou mundialmente conhecido por seus livros Chutando a Escada e 23 coisas que não lhe falam sobre o capitalismo, em que demonstra como os países ricos adotaram e praticam medidas de proteção e estímulo a suas indústrias e tentam impedir os países subdesenvolvidos fazerem o mesmo.

Na avaliação do economista, a economia brasileira vive um momento de extrema fragilidade onde a desnacionalização de duas de suas principais empresas pode agravar o quadro de retração na economia.

Para Chang estas empresas, que são gigantes de seus setores, o de petróleo e da aviação, são fundamentais para criação de novas tecnologias, principais responsáveis pelo desenvolvimento do país.  Somente a Petrobras tem uma rede de mais de 20 mil fornecedores, entre fabricantes de máquinas, equipamentos, embarcações e prestadores de serviços de diferentes portes. A grande maioria na cadeia de exploração e de produção de petróleo e gás, especialmente em alto-mar, águas profundas, ultraprofundas e pré-sal, fornecendo navios, plataformas marítimas, sondas e componentes que surgiram para atender a exigência de nacionalização mínima de 60% das embarcações e de equipamentos utilizados na exploração.

 “As pessoas têm que entender como é séria a redução da indústria de transformação no Brasil. Nos anos 80 e 90, no ponto mais alto da industrialização, esse setor representou 35% da produção nacional. Hoje não é nem 12% e está caindo. O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história, em um período muito curto. O país tem que se preocupar”, declarou em entrevista ao Jornal O Estado de S.Paulo.

O economista alerta para o perigo da desnacionalização, “a Boeing vai tornar a Embraer uma segunda marca, para coisas simples, levar as tecnologias importantes para os Estados Unidos. Pessoas dizem que empresas nacionais não são mais importantes. Não é verdade. Quando uma empresa alemã compra uma americana, os alemães ficam com a gerência e passam a fazer os trabalhos de desenvolvimento mais importantes na Alemanha. É por isso que compram, para controlar. Não digo que nunca se deve vender as companhias líderes para estrangeiras, algumas vezes é necessário, mas é preciso ter cuidado. A Embraer é a única companhia que compete com Boeing e Airbus, apesar de ser menor”.

Chang, que foi consultor do Banco Mundial, do Banco Europeu de Investimento e vários organismos da Organização das Nações Unidas (ONU), é um estudioso do desenvolvimento econômico adotando em seus estudos uma abordagem histórica e tem uma opinião clara quanto aos países que querem crescer, “ os governos de economias emergentes têm que proteger suas indústrias até que elas cresçam e possam competir com as indústrias de países ricos. Praticamente todos os países ricos, começando pela Inglaterra no século XVIII, Estados Unidos e Alemanha, no século XIX, Suécia no começo do século XX, além de Japão, Coreia do Sul e Taiwan...todos estes países se desenvolveram usando protecionismo, subsídios estatais, controle do investimento direto estrangeiro, e em alguns casos, até mesmo empresas estatais”.

No entanto, o economista que conhece bem o Brasil, afirma “o país já mostrou que quando quer fazer uma coisa, ele consegue. Infelizmente, os responsáveis por fazerem as políticas públicas parecem que perderam o rumo. Eles basicamente desistiram do modelo de desenvolvimento econômico por meio de um upgrade na economia, com investimento em indústrias de alta tecnologia”, disse a Regiane Oliveira do EL PAÍS.

No momento que o país amarga o terceiro ano consecutivo de perda de postos de trabalho e do declínio do papel de sua indústria, é bom prestar atenção as palavras do professor Chang.

 

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