Quarta-feira, 22 Novembro 2017  10:40:48

As ideias dos náufragos

  • Escrito por  Redação

O escritor e filósofo espanhol José Ortega y Gasset, no seu livro clássico “A rebelião das massas”, disse: “Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua vida; vão como sonâmbulos, dentro de sua boa ou má sorte, sem ter a mais leve suspeita do que lhes acontece. Ouvi-los-eis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno, o que indicaria que possuem ideias sobre tudo isso. Porém, se analisais superficialmente essas ideias, notareis que não refletem muito nem pouco a realidade a que parecem referir-se, e se aprofundais na análise achareis que nem sequer pretendem ajustar-se a tal realidade”. 

Segundo o filósofo, “o homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas ‘ideias’ fantasmagóricas e olha de frente a vida, e se convence de que tudo nela é problemático, e se sente perdido. Como isso é a pura verdade – a saber, que viver é sentir-se perdido -, quem o aceita já começou a encontrar-se, já começou a descobrir sua autêntica realidade, já está no firme. Instintivamente, como o náufrago, buscará algo para se agarrar, e esse olhar trágico, peremptório, absolutamente veraz porque se trata de salvar-se, lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. Estas são as únicas ideias verdadeiras; as ideias dos náufragos. O resto é retórica, postura, íntima farsa. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexoravelmente; é dizer, não se encontra jamais, não topa nunca com a própria realidade”.

Talvez como poucas vezes na história do Brasil, hoje, a imagem do naufrágio parece simbolizar as nossas circunstâncias. No entanto, parece não existir nas nossas classes dirigentes “homens de mente lúcida”, libertos das “ideias fantasmagóricas”; a nossa elite (política, econômica, intelectual) ainda fala em “fórmulas taxativas sobre si mesma e sobre seu contorno”; não olha de frente a vida; não se convenceu de que nossa vida é (muito) problemática; não se sente perdida. Ao contrário: acredita que o “velho navio”, as velhas formas de fazer política e de pensar ainda são capazes de sustentá-los boiando.

Ontem, o Ministro do Planejamento disse que situação fiscal do País ainda é gravíssima; disse ainda que a arrecadação está em queda; que a despesa com a Previdência está crescendo de forma descontrolada; que o crescimento do gasto previdenciário impede investimentos em outras áreas importantes, como a saúde.

E, enquanto a estrutura orçamentária e fiscal do País se arruína (e se arruínam nossa Educação, Saúde, Segurança, etc, etc), os partidos, as lideranças, os ‘movimentos sociais’, cada um deles querendo assumir o timão do navio, não percebem que a embarcação já “faz água” há décadas. Talvez não demore para que alguns deles, individualmente, percebam a situação. Mas talvez seja tarde.

 

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