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Sede da SSP faz 80 anos de art déco no Centro de SP

06/04/2013 21h55 - Atualizado há 9 anos Publicado por: Redação
Sede da SSP faz 80 anos de art déco no Centro de SP

Projetado em 1929 para ser a sede do Automóvel Club de São Paulo e concluído em 1933, quando passa a abrigar o escritório central da Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF), o Edifício Saldanha Marinho, atual sede da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/SP), completa 80 anos em 2013. Considerado patrimônio histórico desde 1986, foi um dos primeiros arranha-céus no estilo art déco da Capital paulista.

 

Localizado na Rua Líbero Badaró, 39, defronte da Praça do Ouvidor (antigo Largo do Capim) e ao lado do Largo São Francisco, centro da Capital, o prédio chega a oito décadas de existência como um ícone na história da arquitetura vertical paulistana – uma esfinge de concreto armado e vãos estruturais de tijolos que continua testemunhando a evolução urbanística e social da cidade.

Foi o arquiteto carioca Elisiário Antonio da Cunha Bueno Bahiana quem fez o projeto para ser a sede do Automóvel Club. Elisiário era conhecido por sua preferência ao estilo art déco, que já usava no Rio de Janeiro. É uma forma decorativa e geométrica, que teve seu apogeu na década de 30. Combina o uso de materiais nobres e simples na arquitetura – mármore, concreto, granilite e metais diversos.

 

Formas arredondadas

Em São Paulo, Elisiário foi responsável também por várias obras arrojadas para a época, como o Viaduto do Chá, que ele reconstruiu em 1938 usando concreto armado. O viaduto, inaugurado em 1892 em metal alemão e madeira, teve de ser demolido porque não aguentava mais o peso de uma população que não parava de crescer.

Elisiário não chegou a concluir o prédio do Automóvel Club, talvez por falta de dinheiro, e as obras ficaram paralisadas, conta o arquiteto Renato Palaia Lazzari, do Núcleo de Arquitetura e Engenharia da SSP.

O projeto foi concluído por outro arquiteto, Dácio. A. Moraes, que o adaptou para a nova proprietária do imóvel, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. A obra foi executada pela Sociedade Comercial e Construtora Ltda. Devido à irregularidade do terreno, o edifício tem um formato triangular e cantos arredondados nas ruas do Ouvidor, São Francisco e José Bonifácio.

Na sua base externa, destaca-se o granito negro, enquanto o piso do salão da entrada e da escada é em mármore claro, com formas geométricas. Em frente aos elevadores do hall térreo, sobre uma coluna em mármore, está o busto em bronze de Saldanha Marinho, assinado pelo escultor Elio de Giusto, com data parcialmente desgastada pelo tempo.

O mármore e o granito estão presentes em todo o edifício – nas laterais de entrada dos elevadores, em colunas, escadarias e até corredores. A base da entrada de alguns elevadores é guarnecida por placas de latão dourado.

 

Afunilado no topo

São 13 pisos, mais o térreo, subsolo e garagem servidos pelos elevadores, mas há ainda o 14º pavimento com um amplo terraço. Daí o prédio se afunila, com uma escadinha que liga para um pavimento pequeno (15º), onde ficam a sala de máquinas e a caixa d´água; um piso menor ainda que serve como depósito (16º) e mais um pequeno terraço, com acesso por escada de ferro. Está aí outra singularidade do edifício de formas arredondadas – o afunilamento no topo.

De acordo com a Secretaria da Cultura, que já ocupou o prédio antes da SSP, “seu coroamento é marcado por aberturas e recuos devido a um grande terraço” e “o seu interior por grandes pés direitos e amplas esquadrias de ferro e vidro”.

Essas esquadrias ou armações que fixam os janelões, com altura e largura diferentes em cada um dos seus pavimentos, têm articulações, dobradiças e cremonas (trancas) em latão polido, explica Lazzari.

 

Companhia Paulista de Estradas de Ferro

O nome do edifício foi uma homenagem ao jornalista e político Joaquim Saldanha Marinho pela sua participação na fundação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, em 1868. A ocupação do prédio pela Companhia logo após a conclusão da obra, trouxe um toque especial, conservado até hoje nos vitrais instalados no hall pela Casa Conrado.

Esses vitrais contam a história e “representam a evolução do transporte sobre trilhos como o trem a vapor e o elétrico”, fala a arquiteta Flávia Carolina, do Núcleo de Arquitetura e Engenharia. Os artesãos da Casa Conrado, descendentes de uma família de vitralistas alemães, também são os autores dos vitrais que decoram o Mercado Municipal, o Palácio das Indústrias e a Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Trens, ferrovias e trabalhadores dominam a paisagem desses vitrais, cuja técnica artesanal a Casa Conrado trouxe da observação das catedrais góticas européias. Ainda está estampado no relevo do vidro de uma das janelas externas do prédio da SSP o nome da ferrovia: “Companhia Paulista de Estradas de Ferro”, acrescido de “Passagens, excursões, turismo”.

 

Patrimônio histórico

Logo na entrada do hall, à direita e à esquerda, ficam duas janelas internas altas, sempre trancadas – eram os guichês que vendiam esses bilhetes. Mas onde o passageiro embarcava? “Na Estação Júlio Prestes”, diz o funcionário da SSP, Silvio Ferreira, que viveu parte da época romântica dos trens de passageiros – entrou como escriturário em 1975 e saiu em 1990 como agente comercial de uma ferrovia federal, com base na Estação da Luz. A Companhia Paulista operou linhas de passageiros da Capital para várias cidades do interior paulista.

Foi uma época de nostalgia e glamour, com poucos automóveis e sem poluição. Além das viagens de trens, o paulistano ainda dispunha dos bondinhos sobre trilhos, que aos poucos foram sendo desativados, assim como a ferrovia de passageiros. Na atual sede da SSP ficava o comando de todas as operações da Cia. de Estrada de Ferros, que foi estatizada em 1961.

O prédio já foi sede também do Instituto de Engenharia (se instalou no 12º andar em 1934), do Tribunal Regional Federal (TRF) e da Secretaria de Estado e Cultura do Estado de São Paulo. Em 1985, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) inicia o processo de tombamento do prédio como patrimônio histórico, que considera “dos mais expressivos exemplos do estilo art déco da cidade”.

 

Tombamento

O tombamento como “bem cultural de interesse histórico-arquitetônico” saiu pela Resolução nº 39 de 08/09/1986 do Condephaat. Esse reconhecimento é feito depois pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de São Paulo (Compresp). Ele inclui vitrais, esquadrias, portinholas de ferro, lustres, escadaria principal e hall dos elevadores. No 7º andar, onde fica a administração, há uma arandela (tipo de luminária), presa na parede, de latão cromada e vidro, original do prédio, assim como dois pequenos vitrais, acrescenta a arquiteta Flávia Carolina.

O mobiliário (cadeiras, armários e mesinhas de madeira nobre artisticamente esculpidos) e relógios de parede da sala de espera da sala do gabinete do secretário e outros setores são antigo patrimônio da SSP, mas não originais do prédio. O edifício passou por uma reforma em 2001 para adaptá-lo à administração moderna, com aprovação do Condephaat.

 

Salão oval

Foram instalados sanitários para deficientes em todos os pisos, cabeamento estruturado de fibra ótica, gerador a diesel, no break para a rede de computadores, sistema de iluminação de alta eficiência e equipamentos de segurança. No 13º ficam o salão nobre para reuniões e um salão oval, com vista panorâmica para a Rua Líbero Badaró, que pode servir para cerimônias especiais.

O governador Geraldo Alckmin, na sua primeira gestão, descerrou a placa de inauguração em 20/12/2001, afixada na parede atrás da recepção no hall. Desde então, o prédio Saldanha Marinho passou a ser o quartel-general da SSP/SP, com os comandos das Polícias Civil, Militar e Técnico-Científica.

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