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Livro ‘Olho nu’ reúne imagens de Rogério Reis em mais de 40 anos

Foi em um mergulho nos seus arquivos que Rogério Reis reencontrou fotografias feitas no início da carreira

20/09/2021 12h30 - Atualizado há 1 mês Publicado por: Redação
Livro ‘Olho nu’ reúne imagens de Rogério Reis em mais de 40 anos Foto: Reprodução

O Rio de Janeiro se inscreve, sem dúvida, entre as cidades mais fotografadas do mundo. Sua geografia, natureza, as praias, a arquitetura neoclássica e art nouveau e seu ar de cidade que nunca abandonou a pose de imperial. Mas é também um local de contrastes, abandono, violência e da vivência com as múltiplas comunidades que a cercam, além, é claro, do delicioso bem-viver de seus habitantes. É nesse cenário de contrastes que o fotógrafo carioca Rogério Reis circula há 40 anos, registrando as características do Rio e de seus personagens. São muitas as histórias que ele vivenciou e fotografou como fotojornalista. Algumas dessas múltiplas miradas estão no livro Olho Nu – Rogério Reis (Instituto Olga Kos).

A publicação surgiu de um convite feito pelo editor e também fotógrafo João Farkas que, com Kiko Farkas, são os responsáveis pela edição das imagens e pelo design do livro. Além de excelente fotógrafo, Rogério Reis é também um bom contador de histórias, como podemos conferir no longo e despojado bate-papo entre o próprio Rogério, os fotógrafos João Farkas e Edu Simões, os historiadores Ana Mauad e Mauricio Lissovsky, e os professores Rosental Alves e Mayra Rodrigues, transcrito no livro e que antecede as imagens.

Foi em um mergulho nos seus arquivos que Rogério Reis reencontrou fotografias feitas no início da carreira, como, por exemplo, a imagem da destruição do Mangue, realizada em 1979, para a construção de um novo bairro, até hoje não concluído. Apresenta também os surfistas do trem do ramal de Japeri, ensaios mais atuais como Ninguém É de Ninguém, e pequenos recortes da cidade, encontro de olhares: “Este livro, que pode ser definido como uma antologia do meu trabalho, é, na verdade, o reencontro editorial com a fotografia de rua”, conta Rogério, por telefone.

Uma imagem em preto e branco que marcou fortemente o fotojornalismo dos anos 1970 e 1980, especialmente no Jornal do Brasil no qual o Rogério trabalhou no início da sua carreira, chegando a editor de fotografia: “Gosto muito da rua, da crônica de seus hábitos e costumes, de poder conversar com as pessoas. O que me fascina é a busca pelo acaso”, comenta.

Uma procura que o próprio fotógrafo relembra. “Sempre penso na frase de Picasso que dizia: ‘Não sei o que busco, mas sei quando encontro’”, nós também encontramos em suas fotos, que fogem do senso comum.

Seu olhar e sua formação de jornalista não se desviam pela beleza que a cidade oferece, a qual ele também se rende, mas prefere questioná-la, interpretá-la, criticá-la. Foi dessa forma que ele realizou o ensaio Na Lona, que iniciou em 1988, durante a época em que colaborou com a agência F4 (1979-1991), uma das mais importantes cooperativas de fotógrafos jornalistas, com sede em São Paulo, e que imprimiu uma nova forma de fazer fotojornalismo no Brasil, acompanhando de forma independente os movimentos políticos e sociais do País. “A pauta nasceu dentro do projeto da F4. Comecei a fotografar como uma crítica ao carnaval, maravilhoso, mas midiático do Sambódromo no Rio, que pôs à margem o carnaval da periferia, que deixou de ser documentado.” O resultado, muitos retratos de carnavalescos que se deixaram imortalizar sendo fotografados diante de uma lona que Rogério Reis carregava com ele. Um trabalho singular.

Assim como também é especial o retrato que ele fez de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em 1982, por ocasião dos 80 anos do poeta. Desde sempre, Rogério Reis foi vizinho de Drummond e na infância se acostumou a vê-lo pelo bairro. Foi natural para ele, no início de sua carreira, receber a pauta de fazer as fotos que marcariam a reportagem sobre as comemorações de aniversário. “Cheguei lá, toquei a campainha e ele abriu a porta ” Disponível, Drummond sugeriu alguns lugares onde Rogério poderia fotografá-lo, a varanda ou a biblioteca. Rogério recusou as duas propostas e, aproveitando a ousadia que acompanha os jovens, sugeriu ao poeta algo diferente: “Drummond comentou que gostava de sentar-se no chão. E assim foi. Ele se sentou no tapete e comecei a fotografá-lo. Foi quando entrou sua filha Julieta e a sessão de fotos acabou”, conta Rogério, rindo. Inexplicavelmente, essas fotos não foram publicadas na época, para, em seguida, ganharem vida própria e talvez, hoje, seja essa a imagem mais conhecida e divulgada. “Não é essa que está no livro”, explica Rogério. “A mais conhecida é dele com um olhar mais reflexivo. A que está no livro é inédita, eu a reencontrei nas minhas pesquisas.” Na foto publicada é o olhar do poeta que desafia o fotógrafo e sorri para ele.

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