Depoimentos reforçam comportamento racista de Carla Campos

11 de agosto de 2019


O caso é investigado pela delegada Denise Szackal, da Delegacia de Defesa da Mulher

Depoimentos prestados à Delegacia de Defesa da Mulher, os quais o Primeira Página teve acesso, sugerem o comportamento racista da ex-chefe de Gabinete da Secretaria da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Carla Campos. Há duas semanas, ela foi exonerada do posto, uma vez que o caso ganhou corpo no Estado de São Paulo e desgastava a administração do prefeito Airton Garcia.

Um dos relatos é de uma das vítimas do caso, a servidora pública concursada Eliani Cristina Florindo. Ela disse à equipe da delegada Denise Gobbi Szackal que as implicâncias de Carla Campos eram constantes. “Em todas as oportunidades que passava defronte a sala da mesma [Carla], esta pegava o celular, ou telefone fixo, e começava a dizer ‘na época da fazenda de papai, o lugar de negro era na senzala’, de forma a enfatizar a palavra negro”.

Ainda de acordo com o depoimento, Carla Campos dizia, segundo Eliani, que “essa raça não deveria existir”. Eliani declarou que a funcionária Benedita Maria dos Santos, vítima de racismo, era orientada por Carla Campos a concluir o serviço e ficar num quartinho da secretaria.

Nuvens

Numa outra ocasião, Carla Campos teria sugerido que Eliani semeava a discórdia na Secretaria. Consta no depoimento uma provável declaração de Carla Campos. Nela, a ex-chefe de Gabinete discorreu sobre um clima harmonioso na secretaria, até a chegada de Eliani, que teria “instaurado fuxico, fofoca, uma desunião, e que nuvens pretas pairaram ali”.

Benedita Maria dos Santos, a segunda vítima de atos racistas, também apresentou a sua versão na Delegacia de Defesa da Mulher. Ela contou que Carla Campos sempre colocava defeitos no trabalho de faxina “e constantemente gritava sem qualquer motivo”. Benedita relatou situação semelhante a que foi vivida por Eliani. “Carla (…) sempre dizia ‘na fazenda do papai, o lugar de negro é na senzala’”.

Benedita teria sido reprimida por Carla Campos em fevereiro, mês das férias do secretário José Paulo Gomes. “Carla chamou a declarante em sua sala, fechou a porta, e passou a dizer que a declarante fazia tudo errado, e que não era para ficar perambulando pelo prédio; que era para a declarante fazer seu serviço, e depois, ficar no quartinho, que lugar de negro é lá”.

Américo dos Santos, que é diretor da secretaria, ficou sabendo do episódio, pedindo a intervenção de Aparecido Donizetti Penha, que ocupou o cargo na mesma pasta, e Edson Ferraz, o secretário de Esportes. Ambos disseram que Benedita não deveria ficar no quartinho em questão. Por vergonha, Benedita teria omitido de ambos as ofensas racistas.

De acordo com o depoimento, Benedita dividia alimentos com a funcionária Mirian Meira pela janela, pois Carla Campos ficava contrariada com a presença dela na sala da colega de trabalho.

O secretário da pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, José Paulo Gomes, ratifica em depoimento um comportamento temperamental de Carla Campos. “A mesma [Carla] sempre demonstrou-se pessoa que gosta de mostrar o poder de seu cargo, fazendo relevância ao mesmo, e ainda, procura mandar nas pessoas que trabalham ao seu redor”, disse. José Paulo disse que Carla Campos insistia na demissão de Benedita, pois a faxineira era ‘porca’. Sobre as ofensas racistas, José Paulo disse que as desconhecia.

Américo dos Santos traz um depoimento forte sobre a postura adotada por Carla Campos. “O depoente presenciou algumas vezes Carla sujando lugares que a senhora Benedita havia acabado de limpar, única e exclusivamente para mandá-la fazer outra vez o serviço, e ainda, em outras oportunidades, chegava a jogar intencionalmente restos de alimentos no chão e mandava a senhora Benedita limpar”.

Américo dos Santos prossegue. Segundo ele, chegou a ver Carla Campos “sair do banheiro, deixando-o com forte odor, e mandar a senhora Benedita limpá-lo direito que estava uma imundície”.

Solange Nunes da Silva disse que nunca presenciou ataques racistas de Carla Campos a Eliani e Benedita. Acrescentou que Benedita apresentava falhas na execução das tarefas e que fazia comentários maldosos sobre as pessoas, por isso decidiu afastar-se dela.

Em entrevista ao Primeira Página, o advogado de Carla Campos, Abalan Fakhouri, negou o crime de racismo. “A Carla está tranquila, pois não considera que cometeu crime, mas está magoada e sofrendo com a repercussão, afinal é uma pessoa sensível. Ela nega peremptoriamente que cometeu esse crime. A Carla não tem qualquer preconceito quanto à raça e credo”.

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